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Apanhador de Salvados

As novidades da minha estante de leitor de velharias & outras de saldo.

Apanhador de Salvados

As novidades da minha estante de leitor de velharias & outras de saldo.

Temor náutico colorido

- 45 -

15
Set21

        É a primeira vez que este blogue integra uma campanha. Aceitei o desafio do blogue Porque Eu Posso de Fátima Bento e cabe-me escrever sobre A Grande Onda de Kanagawa do pintor japonês Hokusai.

        A primeira impressão foi a reverência perante o fenómeno natural da onda do mar, intensamente visual; mas tenho de acrescentar o sentimento de respeito, palavra intermédia entre aquela e o temor do meu título.

        A onda pretende causar pavor, qual goela ou abismo aonde se precipita tudo em redor. Vai acontecer algo assustador quando ela quebrar. A espuma dispersa parece antecipar a dizimação de tudo o que lhe está próxima. Para além da regularidade das marés, a onda tem o lado negro quando se agiganta no maremoto e invade extensas áreas da terra nipónica.

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        Finalmente, vêem-se barcas com desafortunados passageiros apanhados na refrega das vagas. O naufrágio é possível, e até a morte apresenta-se nesta versão (porque há várias) da estampa na forma tétrica e fantasmática da núvem. Hokusai mostra que a majestade do Monte Fuji, ao fundo, mingua com a ameaçadora ascensão da onda; outro Fuji subjaz em primeiro plano recortado na espuma debaixo da grande onda de Kanagawa.

O Caso da Mulher das Meias Negras

- 44 -

27
Ago21

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Título: O Caso Da Mulher das Meias Negras

Autor: Ross Pynn

Editor: Portugal Press

Data: 1974, 3.ª ed.

260 páginas

****

        Temos um exemplar usado que acompanhou o dono precedente em grande mobilidade. Além disso, cada vez que foi atentamente lido dobrou-se-lhe a capa até espalmar a lombada.

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        Ross Pynn, pseudónimo de Roussado Pinto (Lisboa, 1926 - 1985), tem o declarado culto. Não se socorre da pose literária dos mestres norte-americanos e afasta-se da crua enunciação dramática dos pares lusos. Paira acima, à parte, consequência do hábil sincretismo que lhe sugere a fácil fantasia. Roussado trabalhou com afinco as temáticas da moda (prosa literária, western, policial, terror...). Não difamemos (outros desejarão condenar...) as suas noveletas de weird fantasy de Zakarella. Era um profissional da escrita atento às preferências sem censura que a liberdade democrática permitira importar.

«Nos meus livros não há pornografia» - Roussado Pinto.

        Escrever um romance num fim de semana para atalhar questões financeiras, como chegou a confessar, justificará talvez o pleonasmo («esta rapariga pode ter um lindo futuro à sua frente»), mas o antigo e precoce convívio profissional com o talentoso Raul Correia (1) proporcionou sempre o airoso risco à medida.

        O herói, o ex-militar Joe Stassio, circula nas ruas de Nova Iorque, que tanto parecem as vielas sombrias de Gotham City como a zona ribeirinha de Lisboa. O romance O Nome Dela é Claire abre até com onomatopeias. Stassio acorda nu junto a uma mulher sob o teto desconhecido. Começou a noite alcoolizado e ela deu-lhe guarida; a rapariga confessa estar sob a suspeição do assassínio do ex-companheiro, um mafioso. Ele começa a crer na inocência dela e vai provar isso. Mas quem é ela? Mada, de seu nome, é ilustradora de história aos quadradinhos, e o atelier aonde recolhe Stassio bem pode lembrar um daqueles estúdios municipais de Campo de Ourique alugados aos artistas nos idos de 1950.

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        (1) Raul Rego Correia Freire Manoel Torres de Aboim, 2.º visconde de Idanha, escritor, poeta, tradutor, jornalista (obrigado, Google!).

Livros a votos

- 42 -

01
Jun21

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        Esta votação é anual e solicita os votos dos leitores e clientes da centenária Livraria Bertrand. O votante e colaborador neste plebiscito só tem de abrir o e-mail e pôr uma cruzinha naquele que julga ser o Melhor Livro do Ano dentro de várias categorias (autor lusófono, autor estrangeiro, reedição, tradução...). No fim, como sucedeu hoje, cada participante recebe 20% de desconto numa compra à escolha (e até, como nos anos anteriores, ser convidado a assistir à entrega do prémio na sede da Livraria em Lisboa).

        Na minha opinião, além do atrativo comercial, é uma boa oportunidade para cada leitor refletir em alargada visão sobre o panorama editorial e autoral do nosso país.

O abelharuco

- 41 -

09
Mai21

a.gorda.jpg       Quando vi o anúncio, interrompi a leitura do jornal e procurei a banca mais próxima. O primeiro posto de vendas desconhecia o lançamento. O seguinte apresentou vários volumes, nenhum dos quais o pretendido. No último quiosque perguntaram-me o título; foi ela vasculhar e finalmente pôs o volume diante de mim. Tive de achar então uma boa desculpa para recusá-lo. Na verdade, anos antes eu comprara e lera aquele romance, mas agora, ali, o nome da autora, Isabela Figueiredo, estava corretamente escrito e não com a gralha tipográfica que o reclame do jornal exibira e indiciara uma excelente "curiosidade bibliográfica".

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(imagem do mail da 'London Review of Books')